Pratique
Curiosidades sobre a Língua Portuguesa
- A MATANÇA GRAMATICAL
.............Tudo é matança, mas há algumas diferenças: o filho que mata o pai comete um parricídio. O filho que mata a mãe comete um matricídio. Os pais que matam o filho cometem um filicídio. A mulher que mata o marido comete um mariticídio. E o marido que mata a esposa comete (que horrível) um uxoricídio.
- APERTEM OS CINTOS!
.............Para cada realidade concreta existe uma palavra adequada. Quando um avião desce no aeroporto, aterrissa ou aterriza. Quando o hidroavião pousa no mar, amerissa. E quando uma nave pousa na lua, alunissa ou aluniza.
- FRANCESISMOS? MERCI BEAUCOUP!
.............É bom saber que algumas palavras do nosso vocabulário vieram do francês e, embora possamos usá-las tranqüilamente, possuem correspondentes exatos no português. Para ateliê temos oficina; para complô temos conspiração; para menu temos cardápio; e para omelete temos fritada de ovos.
- POLITICAMENTE CORRETO
............. Hoje, há quem diga que precisamos falar politicamente correto, evitando expressões racistas como: ele judiou de mim, a coisa tá preta ou você está denegrindo minha imagem. Até os brancos começam a se revoltar quando ouvem o vestibulando reclamar: Xi... me deu um branco!
- PONTUALIDADE BRASILEIRA
.............A distinção entre hora e horário é delicada, mas real. Hora pode ser definida como a 24ª parte de um dia inteiro ou como um período de 60 minutos. Já horário (tanto substantivo como adjetivo) refere-se a um período com mais de 1 hora: horário do ônibus, horário nobre, fuso horário, carga horária. Uma comparação: calendário é o período de dias, palavra proveniente de calendas que, em latim, era o primeiro dia do mês.
- FALOU E DISSE!
.............Falar e dizer não são sinônimos. Quem fala, fala bem, fala muito, fala com alguém, fala diante dos outros. Já quem diz, diz a verdade, diz o que pensa, diz besteira, diz o que não deve. Falar tem a ver com o ato da fala. Dizer tem a ver com o conteúdo expresso por aquele que fala. Falou?
- A CURA PELA GRAMÁTICA
.............Existe uma doença que admite os quatro usos que médicos e pacientes fazem dela: a diabete, a diabetes, o diabete e o diabetes. Por outro lado, no caso da palavra terminada em s, o adjetivo que lhe segue fica no singular: diabetes insípido, diabetes melito, diabetes sacarino ou diabetes sacarina.
- QUESTÃO DE OUVIDO
.............Li, certa vez, numa placa: "É proibida a instalação de autofalantes." O ouvido doeu. Não tanto pelo medo de ouvir alguém gritando pelo alto-falante, mas por imaginar como alguém poderia fazer o casamento entre um automóvel e um falante, que ainda por cima era proibido instalar.
- O OUVIDO DÓI, MAS O QUE FAZER?
.............A prosódia indica-nos a maneira certa de pronunciar as palavras, levando em conta a sua tonicidade, conhecimento que ajuda a grafá-las corretamente. Rubrica fala-se rubrica, com o i tônico, mas não acentuado. Ruim é ruim, com i tônico, mas não acentuado. Maquinaria é maquinaria, com i tônico mas não acentuado. E pudico fala-se pudico mesmo, com i tônico, e esse i também não é acentuado.
- A METONÍMIA E O IBOPE
.............Metonímia é uma figura de linguagem em que se usa uma palavra no lugar de outra, estando as duas estreitamente relacionadas. Quando eu digo que a novela está sem ibope trata-se de uma metonímia, porque ibope é a sigla do Instituto Brasileiro de Opinião Pública, e o que a novela não tem mesmo é audiência, cujo índice, aí sim, é calculado pelo Ibope.
- MEDICINA GRAMATICAL
.............Às vezes falamos com imprecisões de sentido, e valeria a pena caprichar. Por exemplo: febre alta. Na verdade, toda febre é temperatura alta. Febre baixa, pelo menos na medicina gramatical, também não existe. Outro exemplo: tirar a pressão. Se uma enfermeira tirar a minha pressão sangüínea eu morro na hora. É bem melhor pedir-lhe para medir a pressão.
- O TEMPO NÃO PÁRA
.............Hoje é hoje. Amanhã é depois de hoje. E depois de amanhã (sem hífens) é daqui a dois dias. E como voltar para o passado? Ontem foi antes de hoje. Antes de ontem é anteontem. E antes de anteontem? Trasanteontem. Por incrível que pareça.
- INSÔNIA GRAMATICAL
.............Depois do décimo carneirinho, podemos contar, sem hífen: décimo primeiro, décimo segundo. Depois: vigésimo, vigésimo primeiro, vigésimo segundo, também sem hífen. Depois: centésimo, centésimo primeiro... também sem hífen. E se a insônia for longa, milionésimo, bilionésimo, trilionésimo primeiro, trilionésimo segundo... e boa-noite!
- E AGORA, JOSÉ?
.............O vocativo é a palavra que serve para chamar alguém ou um animal. Se estiver no meio da frase, vem entre vírgulas. Se estiver no início, põe-se uma vírgula depois. Se vier no final, põe-se uma vírgula antes. Vejamos: José, e agora? E agora, José? Mas, José, e agora?
- O MELHOR, SE FOR MELHOR, MELHOR VIVERÁ
.............Na frase acima, a palavra melhor pertence a três categorias gramaticais diferentes. O melhor (substantivo), se for melhor (adjetivo), melhor (advérbio) viverá. Deles, o último é invariável. A frase no plural fica assim: os melhores, se forem melhores, melhor viverão.
- MUDANÇA DE HÁBITO
.............Como tratar pessoas que ocupam cargos importantes? Um cardeal é Vossa Eminência. Um ministro é Vossa Excelência. Um prefeito também. Um reitor é Vossa Magnificência. Um padre é Vossa Reverendíssima. Um gerente de banco é Vossa Senhoria. Um coronel também. E o papa é Vossa Santidade. Se estamos acostumados a chamar todo mundo de você, é melhor mudar de hábito...
- CONVERSA PRA BOI DORMIR
.............Até no açougue é preciso falar bem. Quando queremos comprar a parte traseira acima das coxas do animal, devemos pedir alguns gramas ou mesmo um quilo de coxão. Trata-se do aumentativo de coxa. Há quem fale colchão, mas isso já é conversa pra boi dormir.
- 10 DE MAIO
.............O que comemoramos no dia primeiro de maio? Quem respondeu o Dia do Trabalho, deveria trabalhar em dobro nesse dia. Comemoramos o Dia do Trabalhador, em analogia com outras datas ao longo do ano em que lembramos o jornalista, o médico e a secretária. Esse feriado nasceu para homenagear operários mortos durante uma passeata no dia 10 de maio de 1889, em Chicago.
- APOFONIA: ISSO TEM CURA?
............. Vários nomes que, no singular, possuem na sílaba tônica um o fechado - povo, poço, glorioso e olho - no plural experimentam mudança de timbre. As palavras povos, poços, gloriosos e olhos são pronunciadas com o o aberto. É o caso também de novos, porcos e coros. Este é um exemplo de apofonia. E como toda a regra tem a sua exceção, gostos, tronos e bolsos têm o o tônico fechado.
- QUE PENA!
.............O uso contínuo de uma expressão errada torna o erro invisível. Poucos vêem o equívoco de usar a palavra penalizar no sentido de punir e castigar. É comum ouvirmos, por exemplo: os jogadores foram penalizados com a expulsão. Penalizar, na verdade, significa causar dor e tristeza. Ele ficou penalizado (ficou triste) ao ver a expulsão dos jogadores. O certo, então, é mudar o verbo da frase anterior, e escrever assim: os jogadores foram punidos com a expulsão.
- A SINGULARIDADE DO PLURAL
............. Várias palavras, no plural, adquirem significados diferentes. Ouro, no singular, é o metal precioso. Ouros, no plural, é um dos naipes das cartas do baralho. Bem é o contrário de mal. Bens são as propriedades que uma pessoa tem. Letra é um caractere do alfabeto. Letras é o curso universitário. Liberdade é o poder de escolher. Liberdades é quando a moça repreende o rapaz apressadinho: - Vamos parar com essas liberdades?
- QUESTÃO DE DIPLOMACIA
.............No mundo da diplomacia, um deslize verbal pode abalar o relacionamento entre dois países. Jamais devemos chamar uma embaixadora de embaixatriz. Ambas as palavras fazem o feminino de embaixador. Porém, a diferença entre uma e outra é imensa: embaixadora é a mulher que ocupa o cargo mais elevado numa embaixada, e embaixatriz é apenas... a esposa do embaixador.
- Susto
.............Numa coluna de Domingo, Elio Gaspari deu um baita susto nos leitores. Escreveu: "Foram poucos os dignatários nacionais que saíram por aí denunciando essa anomalia". Dignatário não existe. Quem exerce cargo elevado é dignitário. Pertence à família de dignidade, dignificante, dignificar.
- Dourar a pílula
Eufemismo? É suavizar uma idéia trocando a palavra ou expressão própria por outra menos desagradável ou chocante. Dizemos descansou em vez de morreu. Desviou recursos em lugar de roubou. O mais recente exemplo vem dos States. Clinton não admite 'relação sexual' com a estagiária. Fala em 'relação imprópria'. Doura a pílula.
- Puxa-saco
.............É só o que dá. Nos programas eleitorais , é elogio pra lá, elogio pra cá. Um candidato manda o outro pro céu. O outro, pro paraíso. O latim tem uma expressão que traduz esse puxa -saquismo interesseiro. É 'asinus asinum fricat' . Tradução : O burro esfrega o burro.
- Mau agouro
............. O João Neves Tebeira anda encucado. ''Volta e meia'', diz ele, ''o presidente usa a palavra cassandra. Fui ao Aurélio. Nada. O que nosso homem quer dizer com tão misterioso ser?'' Ser cassandra, João, é ser ave de mau agouro, alguém que faz previsões sinistras. A história da profetisa de catástrofes vem de longe. Lá da mitologia grega. Foi assim. Apolo quis ser bonzinho com Cassandra. Concedeu-lhe a faculdade de prever o futuro. Mas a moça era rebelde. Desobedecia ao deus a torto e a direito. Resultado: Apolo vingou-se. Fez que ninguém acreditasse nas previsões dela. A adivinha podia acertar. Mas as palavras que saíam daquela boquinha entravam por um ouvido e escapavam por outro. Ninguém lhes dava bola. É isso. Manda quem pode. Desobedece quem não tem juízo.
- Isto é
.............A "Isto É" não ficou atrás. Publicou a foto do príncipe Charles dançando tango em Buenos Aires. Na legenda, chamou-o de ''Sua Majestade''. Esqueceu um pormenor: o tratamento dado a príncipe é Sua Alteza. Resultado: a rainha Elizabeth não sabia que o príncipe viraria Sua Majestade. Cometeu com a "Isto É" a indelicadeza de permanecer viva.
- Chiquititas
............. Esta é o SBT. A rede de Sílvio Santos anuncia aos quatro ventos a volta das Chiquititas ''a partir das 19:00hs''. Cruz-credo! O SBT pode ter acertado no programa. Mas errou na indicação de horas. Com mania de grandeza, tropeçou duas vezes. Uma: a abreviatura de hora, minuto e segundo não tem plural. Outra: a pequenina recusa os dois pontinhos. É assim: 19h, 19h30, 19h30min50.
- Tamanho não é documento
.............Tamanho é documento? Nem sempre. O artigo definido que o diga. Ele tem uma só letrinha. No masculino é o. No feminino, a. Recorrer a ele exige engenho e arte. Bem-empregado, traz benefícios ao texto. Do contrário, complica a vida de Deus e do mundo. O autor quer dizer uma coisa. Mas sai outra. Arma-se um rolo só. Quer ver?
- Os rodoviários reivindicam melhores salários.
- Rodoviários reivindicam melhores salários.
............. Percebe a diferença? Ao dizer ''os rodoviários'', englobam-se todos os rodoviários. Não são todos? OK. Dispense o artigo como na segunda frase. Analise mais exemplos:
Os universitários fazem manifestações contra o provão (= todos os alunos).
Universitários fazem manifestações contra o provão (= alguns estudantes)
Os comerciantes de Boa Viagem preparam manifestação (= todos os donos de comércio).
Comerciantes de Boa Viagem preparam manifestação (= alguns proprietários).
Os segredos do artigo não param por aí. Há outros. Um deles refere-se à repetição do pequenino nas enumerações. São casos assim:
O Brasil, o Uruguai, a Argentina e o Paraguai são os países integrantes do Mercosul.
Brasil, Uruguai, Argentina e Paraguai são os países integrantes do Mercosul.
............. O que fazer? Não vale discriminar. Todos são iguais perante a lei. Usou um substantivo com artigo? Os outros vão atrás. Sem artigo? Também Há uma exceção. O artigo pode aparecer só com o primeiro substantivo se os demais formarem um conjunto estreitamente unido: Nos últimos cem anos, os conceitos, técnicas e processos orçamentários tiveram consideráveis mudanças. Percebeu? Conceitos, técnicas e processos formam quase uma coisa só. Você quer divorciá-los? Use artigo: Nos últimos anos, os conceitos, as técnicas e os processos orçamentários tiveram mudanças. É isso. O despretensioso monossílabo tem mil e uma manhas. Conhecê-las significa tirar vantagens delas. Aproveite.
- De casadoiras e casadoiros
.............O Dia dos Namorados vem todos os anos ... Com ele, a expressão ''namorar o agulheiro e casar-se com a almofada''. Conhece? Se você é moça casadoira, preste atenção. O recado é um alerta para as tímidas. Segundo as más línguas, as coitadinhas são fortes candidatas a tia. Retraídas, ficam ocupadas com costuras e bordados. Não vão à luta. O tempo passa. Elas sobram. Martins Pena criou a expressão. Ela aparece em "O Judas em Sábado de Aleluia". Na peça, a personagem Marocas lembra frase de outro personagem, o capitão Ambrósio: ''Basta de coser. Não hei de namorar o agulheiro nem casar-me com a almofada''. Você joga no time das envergonhadas? Tome precauções. Não pinte nem borde.
- Palavras do leitor
............. Roldão Simas Filho, de Brasília, comenta: ''O jornal me fez conhecer dois novos verbos. Na Nota Oficial do governo do Amazonas, aparece conseqüenciar. No artigo de José Sarney, sentimentar, no sentido de apresentar sentimentos (condolências).'' Xô, coisa feia!
- Espada de Dâmocles
............. Dâmocles vivia em Saracusa. Lá na Grécia. Era um puxa-saco de carteirinha. Cercava de bajulações Dionísio, o tirano de plantão. Um dia, elogiou que elogiou a autoridade do mandachuva. Por ter poder, dizia ele, Dionísio seria pra lá de feliz. De fazer inveja. Mal-humorado, o ditador deu-lhe o troco. Mandou-o sentar-se no trono. Colocou-lhe sobre a cabeça uma espada pendente por um fio. A qualquer instante, a linha poderia romper-se. Quis, com isso, mostrar as inquietudes do poder. Moral da história: pimenta nos olhos dos outros é colírio.
HISTÓRIAS DOS DITADOS POPULARES (CURIOSIDADES DA NOSSA LÍNGUA)
Dicas de redação
............Inicialmente, reforçamos a idéia de que um trabalho de redação é, antes de mais nada, um trabalho de criatividade. Portanto, é muito pessoal, subjetivo; cada cabeça, um estilo. Consideramos um absurdo a tentativa de se padronizar um texto, de se elaborar um "modelo" a ser seguido ou, pior ainda, um gabarito para redação (não confundir com o trabalho de reflexão e análise sobre textos de bons escritores, considerados modelos; tal trabalho é proveitoso para que possamos fixar o nosso estilo).
............Entretanto, mesmo sendo um trabalho subjetivo, de criatividade, de manifestação de um estilo individual, podemos enumerar algumas qualidades e alguns defeitos.
............Como qualidades que devem ser observadas, podemos citar: correção, clareza, concisão e elegância.
............Como defeitos que devem ser evitados, mencionamos: ambigüidade, obscuridade, pleonasmo ou redundância, cacofonia e eco.
AS QUALIDADES
............Correção: evidentemente, um texto deve obedecer às regras gerais da língua, ressalvando-se sempre algumas liberdades como conseqüência do estilo (o uso que cada indivíduo faz da língua, conforme sua vontade).
............Clareza: se o texto não obedece às normas gerais da língua, torna-se pouco claro, difícil de ser compreendido. As palavras devem ser bem colocadas, as idéias devem obedecer a uma determinada lógica, sem se cair, no entanto, num didatismo primário. Ao leitor deve restar - sempre - o prazer da descoberta.
............Concisão: a concisão consiste em se apresentar uma idéia em poucas palavras sem, contudo, comprometer a clareza. O procedimento oposto é a prolixidade, defeito que deve ser evitado.
............Elegância: é, em última análise, o resultado final obtido quando se observam as qualidades e se evitam os defeitos. È o texto agradável de ser lido tanto pelo seu conteúdo como pela sua forma.
OS DEFEITOS
............Ambigüidade: este vício ocorre quando a frase apresenta mais de um sentido, em conseqüência da má pontuação ou da má colocação das palavras.
............Obscuridade: é o defeito que se opõe à clareza. Entre os vícios que acarretam obscuridade podemos citar: má pontuação, rebuscamento da linguagem, frases excessivamente longas (prolixas) ou exageradamente curtas (lacônicas).
............Pleonasmo ou redundância: consiste na repetição de um termo ou de uma idéia. Em alguns casos, no entanto, o pleonasmo tem a função de realçar uma idéia, torná-la mais expressiva; dessa forma, o pleonasmo deixa de ser um vício e passa a ser uma figura de linguagem, um recurso estilístico. Portanto, é necessário distinguir dois tipos de pleonasmo:
............- pleonasmo vicioso: "subir para cima", "entrar para dentro", "decisão unânime de todos", "monopólio exclusivo", etc.
............- pleonasmo de reforço ou estilístico: Camões, em Os Lusíadas (Canto V, estrofe 18), faz uso de um pleonasmo célebre ao iniciar a descrição de uma tromba-d'água marítima:
............" Vi, claramente visto, o lume vivo que a marítima gente tem por santo."
............Cacofonia ou cacófato: é o som desagradável resultante da combinação de duas ou mais sílabas de diferentes palavras. Apesar da fértil imaginação popular, pródiga em criar versinhos cacofônicos, vamos a alguns exemplos: "... a boca dela", "... meu coração por ti gela", "...uma mão", "...vou-me já...", "...por cada", etc.
............Todos nós, uma vez ou outra, cometemos um cacófato - até os grandes mestres. Outra vez citamos Camões, em um de seus sonetos mais famosos:
........................................" Alma minha gentil que te partiste
........................................tão cedo desta vida descontente!"
............Eco: é a repetição desnecessária de um som, resultando num texto desagradável, com um ritmo batido e monótono. A melhor forma de corrigir esse defeito é ler o texto já acabado com muita atenção; na língua portuguesa é preciso tomar muito cuidado, por exemplo, com as terminações -ão, -ade e -mente. Uma frase do tipo: "Contra sua vontade, apenas por bondade, ele foi à cidade; na verdade..." machuca o ouvido.
............Entretanto, como na redação tudo é muito relativo e possível, nós podemos abusar dos advérbios de modo terminados em -mente se o texto versar, por exemplo, sobre a ...mentira. O eco então deixa de ser um defeito e torna-se uma qualidade.
O estilo e a Gramática
............Sobre a rigidez da Gramática e as liberdades de estilo, assim se manifesta o crítico português Rodrigues Lapa em sua obra Estilística da língua portuguesa.
............"Uma das coisas que mais profundamente distinguem a Gramática da Estilística é o conceito de erro: ao contrário do que sucede na Gramática, em Estilística não há propriamente erros, porque para os maiores desvios é achada uma determinante psicológica, natural. A Estilística tem por missão explicar, esclarecer; a Gramática sistematiza e impõe normas, muitas vezes com rigidez excessiva."
...........................................................O gigolô das palavras
.........................................................(Luis Fernando Veríssimo)
............Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com as suas afrontas às leis da língua e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão!", "Culpa da revisão!"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
............Respondi que a linguagem, qualquer linguagem é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, comover...Mas aí entramos na área de talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
............Claro que eu não disse tudo isso a meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isto eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão dispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltratando-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenha também o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
............Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou com a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria importante, impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias para saber quem é que manda.
Vejam algumas curiosidades. Expressões populares, usadas ingenuamente por nós e que têm origens bem
antigas e histórias interessantes. Vários são os ditados provindos da mitologia grega, que são
habitualmente usados na nossa língua:
CALCANHAR DE AQUILES
A mãe de Aquiles, Tétis, com o objetivo de tornar seu filho invulnerável, mergulhou-o num lago mágico,
segurando o filho pelos calcanhares. Páris feriu Aquiles na Guerra de Tróia justamente onde, isso mesmo, no
calcanhar. Portanto, o ponto fraco ou vulnerável de um indivíduo, por metáfora, é o calcanhar de Aquiles.
VOTO DE MINERVA
Orestes, filho de Clitemnestra, é acusado do assassinato da mãe. No julgamento, houve empate. Coube a
deusa Minerva o voto decisivo, que foi em favor do réu. Voto de Minerva é o voto decisivo.
Depois da mãe de Aquiles, vamos a outras mães...
CASA DA MÃE JOANA
Na época do Brasil Império, mais especificamente na época da minoridade do Dom Pedro II, os homens que
realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro cuja proprietária
era justamente a Joana. Como eles mandavam e desmandavam no país, ficou a frase casa da mãe Joana como
sinônimo de lugar em que ninguém manda.
A MÃE DO BADANHA
De origem controvertida. O pessoal do futebol atribui a um tal de Badanha, jogador do Internacional. Mas
existem várias versões. Será que o internauta conhece alguma? Mande mail para a nossa página.
Agora é a vez das religiosas
VÁ SE QUEIXAR AO BISPO
No tempo do Brasil colônia, por causa da necessidade de povoar as novas terras, a fertilidade na mulher
era um predicado fundamental. Em função disso, elas eram autorizadas pela igreja a transar antes do
casamento, única maneira de o noivo verificar se elas eram realmente férteis.
Ocorre que muitos noivinhos fugiam depois do negócio feito. As mulheres iam queixar-se ao bispo, que
mandava homens atrás do fujão.
CONTO DO VIGÁRIO
Duas igrejas em Ouro Preto receberam um presente uma imagem de santa.
Para verificar qual da paróquias ficaria com o presente, os vigários resolveram deixar por conta da mão
divina, ou melhor, das patas de um burro. Exatamente no meio do caminho entre as duas igrejas, colocaram
o tal burro, para onde ele se dirigisse, teríamos a igreja
felizarda. Assim foi feito, e o vigário vencedor saiu satisfeito com a imagem de sua santa. Mas ficou-se
sabendo mais tarde que o burro havia sido treinado para seguir o caminho da igreja vencedora. Assim, conto
do vigário passou à linguagem popular como falcatrua, sacanagem.
FICAR A VER NAVIOS - HISTÓRIAS DE PORTUGAL
O rei de Portugal, Dom Sebastião, morreu na batalha de Alcácer-Quibir,mas o corpo não foi encontrado. A
partir de então (1578), o povo português esperava sempre o sonhado retorno do monarca salvador. Lembremos
que, em 1580, em função da morte de Dom Sebastião, abre-se uma crise sucessória no trono vago de Portugal.
A conseqüência dessa crise foi a anexação dePortugal à Espanha (1580 a 1640), governada por Felipe II.
Evidentemente,os portugueses sonhavam com o retorno do rei,como forma salvadora de resgatar o orgulho e a
dignidade da pátria lusa.Em função disso, o povo passou a visitar com freqüência o Alto de Santa Catarina,
em Lisboa, esperando, ansiosamente,o retorno do dito rei. Como ele não voltou, o povo ficava apenas a ver
navios. Várias piadas são provenientes deste ditado. Umadelas faz graça do casamento de Jaqueline !
com Onássis, grande construtor de navios. Na lua de mel, Jaqueline teria ficado diante da janela do
quarto,e Onásis dizendo-lhe os nomes dos navios atracados no porto. Logo, na lua de mel,ela ficou apenas a
ver navios, como o povo português. É importante frisar também que a morte de Dom Sebastião inaugura o
sebastianismo, que se trata simplesmente disto a chegada do salvador. Várias crenças advêm daí.
Entre elas podemos destacar a guerra de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro.
NÃO ENTENDO PATAVINAS
Os portugueses, conta a história, tinham dificuldades em entender os que diziam os frades franciscanos
patavinos, isto é, originários de Pádua, em italiano Padova. Não entender patavina significa não entender
nada.
DOURAR A PÍLULA
Vem das farmácias que, antigamente, embrulhavam as pílulas em requintados papéis, para dar melhor
aparência ao amargo remédio. Logo,dourar a pílula é melhorar a aparência de algo.
CHEGAR DE MÃOS ABANANDO
Os imigrantes, no século passado, deveriam trazer as ferramentas para o trabalho na terra. Aqueles que
chegassem sem elas, ou seja, de mãos abanando, davam um indicativo de que não vinham dispostos ao
trabalho árduo da terra virgem. Portanto, chegar de mãos abanando é não carregar nada.
Ele chegou de mãos abanando ao aniversário. Significa que não trouxe presente ao pobre aniversariante,
que terá de se satisfazer apenas com a presença do amigo.
VOX POPULI, VOX DEI!
A VOZ DO POVO, A VOZ DE DEUS!
Câmara Cascudo, em Superstição no Brasil, nos esclarece a origem deste ditado. É hábito nosso fazer
adivinhações, por exemplo, como saber o nome do futuro marido ou da futura mulher? Existem várias crenças.
Uma delas é colocar uma moeda na fogueira e, pela manhã, retirá-la do braseiro. Em seguida, dá-se esmola
ao primeiro pedinte. O nome do mendigo será o nome do futuro noivo. Outra registrada por Câmara Cascudo é a
superstição de pôr-se água na boca e esconder-se atrás de uma porta. O primeiro nome ouvido será o do
futuro cônjuge.
A curiosidade é que este hábito não é apenas brasileiro, mas tem origem européia. As pessoas consultavam
o deus Hermes, na cidade grega de Acaia, e faziam uma pergunta ao ouvido do ídolo. Depois o crente
cobria a cabeça com um manto e saía à rua. As primeiras palavras que ele ouvisse eram a resposta a
sua dúvida. Assim, a voz do povo, a voz de Deus.
Vejam algumas curiosidades. Expressões populares, usadas ingenuamente por nós e que têm origens bem
antigas e histórias interessantes. Vários são os ditados provindos da mitologia grega, que são
habitualmente usados na nossa língua:
CALCANHAR DE AQUILES
A mãe de Aquiles, Tétis, com o objetivo de tornar seu filho invulnerável, mergulhou-o num lago mágico,
segurando o filho pelos calcanhares. Páris feriu Aquiles na Guerra de Tróia justamente onde, isso mesmo, no
calcanhar. Portanto, o ponto fraco ou vulnerável de um indivíduo, por metáfora, é o calcanhar de Aquiles.
VOTO DE MINERVA
Orestes, filho de Clitemnestra, é acusado do assassinato da mãe. No julgamento, houve empate. Coube a
deusa Minerva o voto decisivo, que foi em favor do réu. Voto de Minerva é o voto decisivo.
Depois da mãe de Aquiles, vamos a outras mães...
CASA DA MÃE JOANA
Na época do Brasil Império, mais especificamente na época da minoridade do Dom Pedro II, os homens que
realmente mandavam no país costumavam se encontrar num prostíbulo do Rio de Janeiro cuja proprietária
era justamente a Joana. Como eles mandavam e desmandavam no país, ficou a frase casa da mãe Joana como
sinônimo de lugar em que ninguém manda.
A MÃE DO BADANHA
De origem controvertida. O pessoal do futebol atribui a um tal de Badanha, jogador do Internacional. Mas
existem várias versões. Será que o internauta conhece alguma? Mande mail para a nossa página.
Agora é a vez das religiosas
VÁ SE QUEIXAR AO BISPO
No tempo do Brasil colônia, por causa da necessidade de povoar as novas terras, a fertilidade na mulher
era um predicado fundamental. Em função disso, elas eram autorizadas pela igreja a transar antes do
casamento, única maneira de o noivo verificar se elas eram realmente férteis.
Ocorre que muitos noivinhos fugiam depois do negócio feito. As mulheres iam queixar-se ao bispo, que
mandava homens atrás do fujão.
CONTO DO VIGÁRIO
Duas igrejas em Ouro Preto receberam um presente uma imagem de santa.
Para verificar qual da paróquias ficaria com o presente, os vigários resolveram deixar por conta da mão
divina, ou melhor, das patas de um burro. Exatamente no meio do caminho entre as duas igrejas, colocaram
o tal burro, para onde ele se dirigisse, teríamos a igreja
felizarda. Assim foi feito, e o vigário vencedor saiu satisfeito com a imagem de sua santa. Mas ficou-se
sabendo mais tarde que o burro havia sido treinado para seguir o caminho da igreja vencedora. Assim, conto
do vigário passou à linguagem popular como falcatrua, sacanagem.
FICAR A VER NAVIOS - HISTÓRIAS DE PORTUGAL
O rei de Portugal, Dom Sebastião, morreu na batalha de Alcácer-Quibir,mas o corpo não foi encontrado. A
partir de então (1578), o povo português esperava sempre o sonhado retorno do monarca salvador. Lembremos
que, em 1580, em função da morte de Dom Sebastião, abre-se uma crise sucessória no trono vago de Portugal.
A conseqüência dessa crise foi a anexação dePortugal à Espanha (1580 a 1640), governada por Felipe II.
Evidentemente,os portugueses sonhavam com o retorno do rei,como forma salvadora de resgatar o orgulho e a
dignidade da pátria lusa.Em função disso, o povo passou a visitar com freqüência o Alto de Santa Catarina,
em Lisboa, esperando, ansiosamente,o retorno do dito rei. Como ele não voltou, o povo ficava apenas a ver
navios. Várias piadas são provenientes deste ditado. Umadelas faz graça do casamento de Jaqueline !
com Onássis, grande construtor de navios. Na lua de mel, Jaqueline teria ficado diante da janela do
quarto,e Onásis dizendo-lhe os nomes dos navios atracados no porto. Logo, na lua de mel,ela ficou apenas a
ver navios, como o povo português. É importante frisar também que a morte de Dom Sebastião inaugura o
sebastianismo, que se trata simplesmente disto a chegada do salvador. Várias crenças advêm daí.
Entre elas podemos destacar a guerra de Canudos, liderada por Antônio Conselheiro.
NÃO ENTENDO PATAVINAS
Os portugueses, conta a história, tinham dificuldades em entender os que diziam os frades franciscanos
patavinos, isto é, originários de Pádua, em italiano Padova. Não entender patavina significa não entender
nada.
DOURAR A PÍLULA
Vem das farmácias que, antigamente, embrulhavam as pílulas em requintados papéis, para dar melhor
aparência ao amargo remédio. Logo,dourar a pílula é melhorar a aparência de algo.
CHEGAR DE MÃOS ABANANDO
Os imigrantes, no século passado, deveriam trazer as ferramentas para o trabalho na terra. Aqueles que
chegassem sem elas, ou seja, de mãos abanando, davam um indicativo de que não vinham dispostos ao
trabalho árduo da terra virgem. Portanto, chegar de mãos abanando é não carregar nada.
Ele chegou de mãos abanando ao aniversário. Significa que não trouxe presente ao pobre aniversariante,
que terá de se satisfazer apenas com a presença do amigo.
VOX POPULI, VOX DEI!
A VOZ DO POVO, A VOZ DE DEUS!
Câmara Cascudo, em Superstição no Brasil, nos esclarece a origem deste ditado. É hábito nosso fazer
adivinhações, por exemplo, como saber o nome do futuro marido ou da futura mulher? Existem várias crenças.
Uma delas é colocar uma moeda na fogueira e, pela manhã, retirá-la do braseiro. Em seguida, dá-se esmola
ao primeiro pedinte. O nome do mendigo será o nome do futuro noivo. Outra registrada por Câmara Cascudo é a
superstição de pôr-se água na boca e esconder-se atrás de uma porta. O primeiro nome ouvido será o do
futuro cônjuge.
A curiosidade é que este hábito não é apenas brasileiro, mas tem origem européia. As pessoas consultavam
o deus Hermes, na cidade grega de Acaia, e faziam uma pergunta ao ouvido do ídolo. Depois o crente
cobria a cabeça com um manto e saía à rua. As primeiras palavras que ele ouvisse eram a resposta a
sua dúvida. Assim, a voz do povo, a voz de Deus.